Filmar dói

Maio 10, 2008

Quem já trabalhou comigo, com certeza já me ouviu falar do quanto o processo criativo é doloroso. E daí surgiram todas as infinitas discussões com o pessoal do atendimento de todas agências em que trabalhei. Parece incompreensível que o ato de criar seja algo menos mecânico do que preencher pastéis e colocar pra fritar – e ainda assim, existem pastéis e PASTÉIS. Eu sempre me coloquei o desafio de criar CAMPANHAS, e não campanhas. FILMES, e não filmes. Tudo em maiúsculo. Lógico que nem sempre consegui. Mas sempre doeu.

A primeira pancada é encarar a tela em branco do computador. Ou a folha de papel vazia. Não há nada mais solitário do que o frio, silencioso e imenso deserto do momento anterior à idéia. De repente, algo acontece, uma borboleta bate as asas sei lá onde, e uma faísca se acende: idéia.

Você pariu a solução. É hora de produzir. Vamos pro set. Aprovou o casting, locação, figurino, direção de arte, tudo. De repente, são 30 pessoas olhando pra sua cara, querendo respostas ou apenas esperando que você faça o trem acontecer. De repente, com o estômago embrulhado, você direciona: a câmera vai ali, fazendo tal movimento. O ator dá a fala, depois de uma pausa de tanto tempo, mais intenso, menos intenso. Direção de arte, arruma aquela flor. Maquiagem retoca. Figurino tá certo com o outro plano? Você vai dando ordens e torcendo pra ninguém perceber que no fundo você não tem a mínima idéia do que tá fazendo. Corta. Vamos assistir. Ih, caralho. Ficou bom! Como? “Não sei, é um mistério”.*

Uau, o êxtase do sucesso. Tudo perfeito. Até algum safado sem coração chegar e perguntar qual é o próximo plano. O estômago embrulha de novo.

Um dia, a filmagem acaba. Aí, a nova pancada é perceber que você acabou a viagem melhor do que começou. E as suas decisões com certeza seriam melhores agora. Mas não dá mais. Tudo está na lata (ou na fita). O filme, feito hoje, seria melhor do que o que você fez. Junto com isso, vem a maldita insegurança. A dúvida. Você corre pra ilha, querendo rever todo e qualquer plano. Quer montar tudo em meia hora, pra ter a certeza da grande merda que fez. Ou então, pior, fica aguardando, silenciosamente desesperado, as malditas fitas chegarem do telecine em São Paulo.

É nesse momento em que me encontro. Segunda, recebo o material bruto. Vou, com certeza, passar o dia capturando fita por fita, encarando a realidade em 720×480. E sei – pois já passei por isso muitas vezes – vou odiar. Esse plano podia ter um movimento. Eu podia ter segurado um pouco mais. Podia ter dado uma outra orientação pro ator. Podia. Podia. Podia. Dói. Dói. Dói.

Aí, toda a sua esperança é direcionada pra um ser supremo. O Mestre dos Magos, o Gandalf, o Yoda, o Pai-Mei. Resignado, você se ajoelha e entrega as fitas para ele: o montador. Salve esse material, você diz, humilde.

No meu caso, o meu montador sou eu mesmo. Assim, chego à firme e concreta certeza: Estou fodido. E isso dói.

Legenda: Ai.

* Fala roubada do personagem de Geoffrey Rush em Shakespeare Apaixonado. Roteiro ótimo de Tom Stoppard.

 

3 Respostas para “Filmar dói”

  1. neuza disse

    um amigo perguntou-me de sopetão:
    - arte arde?.
    - hã?
    - incisivo repetiu: arte arde?
    - sim.
    - porque???
    - porque é sua a criação.
    - ha! brigado

  2. Lauro disse

    Fala ae!?
    Todo o processo de criação dói, principalmente se a idéia ainda não foi desenvolvida.
    Criar é ao contrário do que dizem, a primeira profissão que surgiu no universo…

  3. Barbarakimberly disse

    Hey, baby! Estamos aí! Beijo grande.
    PatB

Deixe uma resposta