Trailer, a viagem e a manutenção do tesão
Maio 22, 2008
Tenho que tirar o chapéu pros blogueiros. É bastante difícil achar tempo para atualizar isso aqui.
Todo mundo tá cobrando o trailer do filme. O que é uma coisa engraçada, pelo próprio formato do trem. É difícil fazer um trailer sem entregar muita coisa da história, já que tá tudo tão entrelaçado. Mas começei a montar o dito cujo. E me fiz uma pergunta: “sobre o que é este filme?”
Aí fiquei ruminando. Sobre relações interpessoais em uma cidade pequena. Sobre o amor. Sobre o amor por uma mulher. Por uma filha. Dinheiro. Morte. É. Não sei se sei sobre o que é. Pode ser sobre isso tudo. Me ajudem.
Diferente dos meus dois primeiros filmes, Depois da Queda não tem um punch final. Pelo menos, não tão explícito como Baseado em fatos Reais e Comprometendo a Atuação. Nesses dois, a narrativa constrói uma expectativa que culmina no último plano. Alguns críticos não gostam. Mas a platéia adora.
Acho que em Depois da Queda, o interessante vai ser a viagem. A interação. A descoberta. Espero que quem assista “entre” na história.
Como imaginei, tá gostoso de montar. Me ajuda na manutenção do tesão.
Amanhã começa o Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá. Polêmicas à parte, um evento essencial pro mercado audiovisual. Sou “cria” do Festival – Eu, Keiko, Rômulo e Bedin já fomos chamados de “os filhos do Festival”. Bons tempos (Pronto. Olha o que ter 30 anos faz com a gente. Bons tempos?). De qualquer forma, estarei lá, encontrando os povos e vendo filme. Oba.
João Monlevade ou coxinha de frango? O interessante é a viagem
Foto: Felipe Barros
A fita 04, O rolo 25, Celular sem sinal & Cateterismo
Maio 16, 2008
Com o meu último post, algumas pessoas comentaram e eu fiquei num dilema. Esse blog é só a respeito do filme ou rola tratar de outros assuntos?
Se for só a respeito do filme, vão haver períodos de vácuo. Não é possível que todo santo dia algo de extraordinário relacionado ao filme aconteça. Ou isso, ou vocês se contentam com a minha descrição da decupagem da fita 04.
Bão… Assim, tá decidido. O blog é sobre o filme, mas não exclusivamente. Se tiver assunto, meto lá (ou melhor, aqui).
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Sobre o filme: André ligou com boas notícias. O “rolo desparecido” estava com ele. Foi trocado por engano.
Não coloquei aqui pra poupar os sete leitores desse blog da imensa preocupação. Recebi o telecine faltando um rolo inteiro. O rolo 25. Revira o laboratório e nada. Gelei. Era o rolo com os planos do atropelamento. Impossível de não usar. No fim, estava com o André.
Ando gelando muito ultimamente. Como vocês verão a seguir.
O rolo 25, ainda dentro da câmera
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Roteiro
ESTRADA – EXT. FIM DE TARDE
O carro corta a estrada em alta velocidade. Dentro dele, Bruno e Fábio conversam a respeito da reunião que acabaram de ter. A luz do celular ilumina o console. Bruno pega o aparelho.
- Alô.
- Al… … tô tentando fal… …com você… …sua mã… …hospit…
- Oi? Tá cortando. Minha mãe o quê?
- …arada cardíaca… …hospital…
O carro pega uma descida. A ligação cai. Bruno fecha o aparelho.
FÁBIO – Que que foi, macacão?
- Tava cortando, mas acho que minha mãe teve uma parada cardíaca.
Fábio mete o pé no acelerador. O carro acelera, cortando a estrada.
Uma hora inteira em silêncio.
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Não era uma parada cardíaca. Era um enfarte agudo. Artéria obstruída. UTI. Sai da UTI para fazer um Cateterismo. Desobstruir a artéria e deixar o sangue passar. UTI de novo. Único diálogo é entre a saída da operação até a porta da UTI – escolher bem as palavras, são quinze metros de distância apenas. Choro.
Clima pesado no carro. Ligar para tios em Belo Horizonte. Deixar as meninas em casa, mesmo não querendo. Voltar pra casa. Abraçar Enzo. Forte. Dormir.
Saída da UTI hoje. Não é que tá tudo bem, mas tá tudo bem. Estável. Mais tranquila. Visita liberada. Alívio. Prefixo 31: ligação dos tios. Só consegui ir à tarde. Conversa séria. Problemas vasculares. Largar o cigarro. Amanhã o cardiologista volta, cedinho. Conversa idiota. Põe na novela. Comida de hospital. Voltar pra casa ainda gelado.
Cá. Bi. Vivinha. Pai. Mãe. Não digo muito, mas amo vocês.
Eu. Odeio. Hospital.
P.S.: Mulherada forte, essa.
Pissing contest & uma parede com grafite
Maio 13, 2008
Esse post é dois em um.
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No sábado foi o prêmio TVCA de Criação e Vídeo.
Pra quem não é de casa, o Prêmio TVCA é, junto com o prêmio Gazeta, o acontecimento do ano pro mercado publicitário regional. Um amigo escroto me disse que é o “pissing contest” dos criativos (amigos escrotos geralmente são coerentes). Se for, esse ano minha bexiga tava inspirada. Dos quatro prêmios oferecidos pra agências da capital, a Casa D’Idéias levou três – Institucional, Campanha e Autarquias e Órgãos Públicos. E Depois, o Grand Prix. Bacana. Deu gosto. Meu ego é standard, mas deu pra inflar um pouquinho.
Bacana:
- Agências do interior com trabalhos cada vez mais interessantes. Boa qualidade de produção e criatividade que dá gosto.
- Encontrar amigos que somem na correria o ano inteiro.
- Show de rock depois da premiação. Ok, foi Paulo Ricardo, mas pra quem já teve Mafalda Minozzi, Edson Cordeiro e Eduardo Dusek, ouvir umas guitarras foi uma evolução. Ele só podia largar mão dos gritinhos. Fica parecendo o Frank Aguiar.
- Ganhar quatro prêmios. ; )
Não bacana:
- Tinha uma mesa de sushi, mas fui sentar e quando voltei já era.
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Chegaram as brutas do filme.
Seis fitinhas pequenininhas. Nunca tive tanto cuidado com algo. Quase benzi elas, mas fiquei com medo da água estragar algo. Meu filho pegou uma por uma e colocou uma atrás da outra, fazendo um “tênzinhu” (Piuíííí, papai).
Subi no trenzinho e encarei uma montanha russa.
Plano do caralho. Sobe.
Plano nhenhé. Desce.
Sequência bem decupada. Sobe.
Plano com risco bem no meio (!). Desce em velocidade vertiginosa.
Plano de cobertura, salvando a pele. Sobe chorando de alívio.
Quando o trem das seis fitinhas parou, meu estômago já estava um pouco melhor. Rodei quase metade do filme sem vídeo-assist. Eu simplesmente marcava o plano e ensaiava com o olho no viewfinder. Na hora de rodar, deixava o André ou o Krishna operarem a câmera e tinha que fazer um exercício mental/visual que nunca mais quero na minha vida. Bom, todos os planos saíram como eu queria. Posso respirar?
O resultado? Meu, o roteiro tinha uma energia, uma pegada boa, eu sabia disso. Mas vendo o trem rodado, de cabeça fria, vejo que o negócio tomou corpo. Tive a sorte de trabalhar com uma galera que entendeu o que a história pedia.
Visualmente, tá cru. Dinâmico. Contrastado. Cheio de grão. Ousado. Não é uma tela com tinta, é uma parede com grafite. Não é arpejo, irmão, é riff.
Espero conseguir montar o filme como ele merece.
Filmar dói
Maio 10, 2008
Quem já trabalhou comigo, com certeza já me ouviu falar do quanto o processo criativo é doloroso. E daí surgiram todas as infinitas discussões com o pessoal do atendimento de todas agências em que trabalhei. Parece incompreensível que o ato de criar seja algo menos mecânico do que preencher pastéis e colocar pra fritar – e ainda assim, existem pastéis e PASTÉIS. Eu sempre me coloquei o desafio de criar CAMPANHAS, e não campanhas. FILMES, e não filmes. Tudo em maiúsculo. Lógico que nem sempre consegui. Mas sempre doeu.
A primeira pancada é encarar a tela em branco do computador. Ou a folha de papel vazia. Não há nada mais solitário do que o frio, silencioso e imenso deserto do momento anterior à idéia. De repente, algo acontece, uma borboleta bate as asas sei lá onde, e uma faísca se acende: idéia.
Você pariu a solução. É hora de produzir. Vamos pro set. Aprovou o casting, locação, figurino, direção de arte, tudo. De repente, são 30 pessoas olhando pra sua cara, querendo respostas ou apenas esperando que você faça o trem acontecer. De repente, com o estômago embrulhado, você direciona: a câmera vai ali, fazendo tal movimento. O ator dá a fala, depois de uma pausa de tanto tempo, mais intenso, menos intenso. Direção de arte, arruma aquela flor. Maquiagem retoca. Figurino tá certo com o outro plano? Você vai dando ordens e torcendo pra ninguém perceber que no fundo você não tem a mínima idéia do que tá fazendo. Corta. Vamos assistir. Ih, caralho. Ficou bom! Como? “Não sei, é um mistério”.*
Uau, o êxtase do sucesso. Tudo perfeito. Até algum safado sem coração chegar e perguntar qual é o próximo plano. O estômago embrulha de novo.
Um dia, a filmagem acaba. Aí, a nova pancada é perceber que você acabou a viagem melhor do que começou. E as suas decisões com certeza seriam melhores agora. Mas não dá mais. Tudo está na lata (ou na fita). O filme, feito hoje, seria melhor do que o que você fez. Junto com isso, vem a maldita insegurança. A dúvida. Você corre pra ilha, querendo rever todo e qualquer plano. Quer montar tudo em meia hora, pra ter a certeza da grande merda que fez. Ou então, pior, fica aguardando, silenciosamente desesperado, as malditas fitas chegarem do telecine em São Paulo.
É nesse momento em que me encontro. Segunda, recebo o material bruto. Vou, com certeza, passar o dia capturando fita por fita, encarando a realidade em 720×480. E sei – pois já passei por isso muitas vezes – vou odiar. Esse plano podia ter um movimento. Eu podia ter segurado um pouco mais. Podia ter dado uma outra orientação pro ator. Podia. Podia. Podia. Dói. Dói. Dói.
Aí, toda a sua esperança é direcionada pra um ser supremo. O Mestre dos Magos, o Gandalf, o Yoda, o Pai-Mei. Resignado, você se ajoelha e entrega as fitas para ele: o montador. Salve esse material, você diz, humilde.
No meu caso, o meu montador sou eu mesmo. Assim, chego à firme e concreta certeza: Estou fodido. E isso dói.
Legenda: Ai.
* Fala roubada do personagem de Geoffrey Rush em Shakespeare Apaixonado. Roteiro ótimo de Tom Stoppard.
São Paulo, Recife, celular e prêmio
Maio 6, 2008
Parei um pouco de postar porque fui para São Paulo, começar a finalização do filme. Depois de checar o teste de revelação, Eu e André (Luis da Cunha, fotógrafo do filme) batemos o martelo e demos o ok.
Na sexta vim pra Recife, apresentar Comprometendo a Atuação, meu filme anterior no Cine-PE. Rapaz, que coisa impressionante. São quase três mil e quinhentas pessoas em uma sala gigante. É um negócio que intimida. Você sobe no palco pra apresentar o filme e se depara com aquele mar de gente. Não pude deixar de tirar uma foto.
Foi a melhor recepção que o filme teve até agora em todos os festivais que fui. O feedback pós-exibição também foi ótimo. Estou cada vez mais convencido que os festivais são mais do que vitrine para os filmes, um local de provação e crescimento técnico e amadurecimento conceitual. Muito debate, muitas opiniões, muitas idéias. Bom demais. Só uma coisa estragou o ótimo clima. Perdi meu celular, com todos os meus contatos. Sentei pra uma entrevista pro Zoom e levantei sem perceber que o aparelho tinha caído. Droga.
Ontem foi a premiação e o filme levou mais um prêmio. Melhor ator pro Johnathan Haagensen. Fiquei muito feliz, achando justo, muito justo, justíssimo. Ele mandou muito bem mesmo, se tornou a alma do filme – e além disso foi um grande parceiro. Dirigir ator é um trem que eu adoro. Curto muito ver o personagem ganhar vida, crescer e se tornar real. É um processo que me fascina. Além disso, admiro a entrega dos atores. De repente, você se torna outra pessoa totalmente diferente e tem que achar a verdade naquilo ali. Impressionante.
Johnathan Haagensen e Michelle Valle em cena de Comprometendo a Atuação
Eu, apresentando o filme – frio na barriga
O teatro lotado – 3.200 pessoas
Debate dos diretores – Marco Dutra (Um Ramo), eu, Juliana Sanson (Fabulário Geral de um Delírio Curitibano), Felipe Calheiros (Até Onde a Vista Alcança) e Fernando Coimbra (Trópico das Cabras)
Realizadores de curtas
Amanhã volto pra Cuiabá, onde vou aguardar o material telecinado chegar. Estou doido pra começar a costurar Depois da Queda. Com certeza vou mandar pra Recife ano que vem. E torcer pra entrar.







