Trailer

Junho 11, 2008

Defina amor. 

Frio em Cuiabá. Trem de doido. Se nem no calor de Cuiabá eu posso confiar, imagine o resto.

Ontem voltei de Rondonópolis depois de uma reunião e fui direto pra produtora. Logo depois chegaram Léo e Giovanni. Fomos ver o primeiro corte.

Nunca fiz isso. Mostrar o filme inacabado para um ator. É sempre um outro tipo de impacto assistir a algo ainda sem edição de som, trilha, efeitos, marcação de luz e com alguns cortes para ajustar. Rola o risco de perder a pegada. Mas no caso dele, achei que merecia. Com a condição de não falar pra nenhum outro ator que já tinha assistido. Léo, assistente de direção e entendido de montagem se ajustou na cadeira e dei play.

Vinte minutos depois, a tela escurece e Giovanni diz: “Ficou com o quê… Uns doze minutos?” Ôpa, coisa boa. Tá passando rápido. SInal de que tá dinâmico. Quero baixar pra uns 18 minutos ainda.

Giovanni pirando, recapitulando plano a plano. Léo sugerindo jump cuts. Empolgação. Fome. Fomos pro Pizza na Pedra. Fechado. Pizza Hit. Fechado. Itiban. Aberto. Paramos. Léo iniciou Giovanni nas delícias do saquê e ficamos umas boas duas horas conversando sobre tudo. Política. Cinema. Terráqueos.

Até decidirmos ir para o Caio, ator que fez o Ivan. Já eram 24:50h. Imaginei que a minha falta de sono nos últimos dias não seria recuperada agora.

Chegamos no Caio. Giovanni entra e solta “Vi o filme!!!” Feladamãe. Se nem no calor de Cuiabá eu posso confiar, imagine o resto. Caio quis saber de tudo. Falamos. Momentos depois, mais calmos, Caio estava mostrando algumas músicas – tinha esquecido que ele é músico, e talentoso. Bateu o óbvio. Por que não pedir que ele faça sugestões de trilha pro filme? “Mas eu não vi o filme ainda”. Malandro.

02:00h. Paramos na produtora. Abre a porta. Desliga o alarme. Liga o computador. Senta. Play. Vinte minutos depois: Giovanni roncando no chão. Léo sugerindo jump cuts. Caio empolgadão. Exportei esse corte para o Caio. Ele vai trabalhar temas em cima dessa montagem.

Quase três da manhã, dirigindo pra casa, me lembrei de Bruna – Marina – e Kudla – Marcelo. Quando eles souberem que Giovanni e Caio já viram o corte, vão dizer: Se nem no calor de Cuiabá eu posso confiar, imagine nesse diretor safado.

Léo, Giovanni e Caio. Se nem no calor eu posso confiar, imagine nesses três.

Tenho que tirar o chapéu pros blogueiros. É bastante difícil achar tempo para atualizar isso aqui.

Todo mundo tá cobrando o trailer do filme. O que é uma coisa engraçada, pelo próprio formato do trem. É difícil fazer um trailer sem entregar muita coisa da história, já que tá tudo tão entrelaçado. Mas começei a montar o dito cujo. E me fiz uma pergunta: “sobre o que é este filme?”

Aí fiquei ruminando. Sobre relações interpessoais em uma cidade pequena. Sobre o amor. Sobre o amor por uma mulher. Por uma filha. Dinheiro. Morte. É. Não sei se sei sobre o que é. Pode ser sobre isso tudo. Me ajudem.

Diferente dos meus dois primeiros filmes, Depois da Queda não tem um punch final. Pelo menos, não tão explícito como Baseado em fatos Reais e Comprometendo a Atuação. Nesses dois, a narrativa constrói uma expectativa que culmina no último plano. Alguns críticos não gostam. Mas a platéia adora.

Acho que em Depois da Queda, o interessante vai ser a viagem. A interação. A descoberta. Espero que quem assista “entre” na história.

Como imaginei, tá gostoso de montar. Me ajuda na manutenção do tesão.

Amanhã começa o Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá. Polêmicas à parte, um evento essencial pro mercado audiovisual. Sou “cria” do Festival – Eu, Keiko, Rômulo e Bedin já fomos chamados de “os filhos do Festival”. Bons tempos (Pronto. Olha o que ter 30 anos faz com a gente. Bons tempos?). De qualquer forma, estarei lá, encontrando os povos e vendo filme. Oba.

João Monlevade ou coxinha de frango? O interessante é a viagem

Foto: Felipe Barros

Com o meu último post, algumas pessoas comentaram e eu fiquei num dilema. Esse blog é só a respeito do filme ou rola tratar de outros assuntos?

Se for só a respeito do filme, vão haver períodos de vácuo. Não é possível que todo santo dia algo de extraordinário relacionado ao filme aconteça. Ou isso, ou vocês se contentam com a minha descrição da decupagem da fita 04.

Bão… Assim, tá decidido. O blog é sobre o filme, mas não exclusivamente. Se tiver assunto, meto lá (ou melhor, aqui).

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Sobre o filme: André ligou com boas notícias. O “rolo desparecido” estava com ele. Foi trocado por engano.

Não coloquei aqui pra poupar os sete leitores desse blog da imensa preocupação. Recebi o telecine faltando um rolo inteiro. O rolo 25. Revira o laboratório e nada. Gelei. Era o rolo com os planos do atropelamento. Impossível de não usar. No fim, estava com o André.  

Ando gelando muito ultimamente. Como vocês verão a seguir.

O rolo 25, ainda dentro da câmera

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Roteiro

ESTRADA – EXT. FIM DE TARDE

O carro corta a estrada em alta velocidade. Dentro dele, Bruno e Fábio conversam a respeito da reunião que acabaram de ter. A luz do celular ilumina o console. Bruno pega o aparelho.

- Alô.

- Al… … tô tentando fal… …com você… …sua mã… …hospit…

- Oi? Tá cortando. Minha mãe o quê?

- …arada cardíaca… …hospital…

O carro pega uma descida. A ligação cai. Bruno fecha o aparelho.

FÁBIO – Que que foi, macacão?

- Tava cortando, mas acho que minha mãe teve uma parada cardíaca.

Fábio mete o pé no acelerador. O carro acelera, cortando a estrada.

Uma hora inteira em silêncio.

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Não era uma parada cardíaca. Era um enfarte agudo. Artéria obstruída. UTI. Sai da UTI para fazer um Cateterismo. Desobstruir a artéria e deixar o sangue passar. UTI de novo. Único diálogo é entre a saída da operação até a porta da UTI – escolher bem as palavras, são quinze metros de distância apenas. Choro.

Clima pesado no carro. Ligar para tios em Belo Horizonte. Deixar as meninas em casa, mesmo não querendo. Voltar pra casa. Abraçar Enzo. Forte. Dormir.

Saída da UTI hoje. Não é que tá tudo bem, mas tá tudo bem. Estável. Mais tranquila. Visita liberada. Alívio. Prefixo 31: ligação dos tios. Só consegui ir à tarde. Conversa séria. Problemas vasculares. Largar o cigarro. Amanhã o cardiologista volta, cedinho. Conversa idiota. Põe na novela. Comida de hospital. Voltar pra casa ainda gelado.

Cá. Bi. Vivinha. Pai. Mãe. Não digo muito, mas amo vocês.

Eu. Odeio. Hospital.

P.S.: Mulherada forte, essa.

Esse post é dois em um.

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No sábado foi o prêmio TVCA de Criação e Vídeo.

Pra quem não é de casa, o Prêmio TVCA é, junto com o prêmio Gazeta, o acontecimento do ano pro mercado publicitário regional. Um amigo escroto me disse que é o “pissing contest” dos criativos (amigos escrotos geralmente são coerentes). Se for, esse ano minha bexiga tava inspirada. Dos quatro prêmios oferecidos pra agências da capital, a Casa D’Idéias levou três – Institucional, Campanha e Autarquias e Órgãos Públicos. E Depois, o Grand Prix. Bacana. Deu gosto. Meu ego é standard, mas deu pra inflar um pouquinho.

Bacana:

  • Agências do interior com trabalhos cada vez mais interessantes. Boa qualidade de produção e criatividade que dá gosto.
  • Encontrar amigos que somem na correria o ano inteiro.
  • Show de rock depois da premiação. Ok, foi Paulo Ricardo, mas pra quem já teve Mafalda Minozzi, Edson Cordeiro e Eduardo Dusek, ouvir umas guitarras foi uma evolução. Ele só podia largar mão dos gritinhos. Fica parecendo o Frank Aguiar.
  • Ganhar quatro prêmios. ; )

Não bacana:

  • Tinha uma mesa de sushi, mas fui sentar e quando voltei já era.

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Chegaram as brutas do filme.

Seis fitinhas pequenininhas. Nunca tive tanto cuidado com algo. Quase benzi elas, mas fiquei com medo da água estragar algo. Meu filho pegou uma por uma e colocou uma atrás da outra, fazendo um “tênzinhu” (Piuíííí, papai).

Subi no trenzinho e encarei uma montanha russa.

Plano do caralho. Sobe.

Plano nhenhé. Desce.

Sequência bem decupada. Sobe.

Plano com risco bem no meio (!). Desce em velocidade vertiginosa.

Plano de cobertura, salvando a pele. Sobe chorando de alívio.

Quando o trem das seis fitinhas parou, meu estômago já estava um pouco melhor. Rodei quase metade do filme sem vídeo-assist. Eu simplesmente marcava o plano e ensaiava com o olho no viewfinder. Na hora de rodar, deixava o André ou o Krishna operarem a câmera e tinha que fazer um exercício mental/visual que nunca mais quero na minha vida. Bom, todos os planos saíram como eu queria. Posso respirar?

O resultado? Meu, o roteiro tinha uma energia, uma pegada boa, eu sabia disso. Mas vendo o trem rodado, de cabeça fria, vejo que o negócio tomou corpo. Tive a sorte de trabalhar com uma galera que entendeu o que a história pedia.

Visualmente, tá cru. Dinâmico. Contrastado. Cheio de grão. Ousado. Não é uma tela com tinta, é uma parede com grafite. Não é arpejo, irmão, é riff.

Espero conseguir montar o filme como ele merece.

Filmar dói

Maio 10, 2008

Quem já trabalhou comigo, com certeza já me ouviu falar do quanto o processo criativo é doloroso. E daí surgiram todas as infinitas discussões com o pessoal do atendimento de todas agências em que trabalhei. Parece incompreensível que o ato de criar seja algo menos mecânico do que preencher pastéis e colocar pra fritar – e ainda assim, existem pastéis e PASTÉIS. Eu sempre me coloquei o desafio de criar CAMPANHAS, e não campanhas. FILMES, e não filmes. Tudo em maiúsculo. Lógico que nem sempre consegui. Mas sempre doeu.

A primeira pancada é encarar a tela em branco do computador. Ou a folha de papel vazia. Não há nada mais solitário do que o frio, silencioso e imenso deserto do momento anterior à idéia. De repente, algo acontece, uma borboleta bate as asas sei lá onde, e uma faísca se acende: idéia.

Você pariu a solução. É hora de produzir. Vamos pro set. Aprovou o casting, locação, figurino, direção de arte, tudo. De repente, são 30 pessoas olhando pra sua cara, querendo respostas ou apenas esperando que você faça o trem acontecer. De repente, com o estômago embrulhado, você direciona: a câmera vai ali, fazendo tal movimento. O ator dá a fala, depois de uma pausa de tanto tempo, mais intenso, menos intenso. Direção de arte, arruma aquela flor. Maquiagem retoca. Figurino tá certo com o outro plano? Você vai dando ordens e torcendo pra ninguém perceber que no fundo você não tem a mínima idéia do que tá fazendo. Corta. Vamos assistir. Ih, caralho. Ficou bom! Como? “Não sei, é um mistério”.*

Uau, o êxtase do sucesso. Tudo perfeito. Até algum safado sem coração chegar e perguntar qual é o próximo plano. O estômago embrulha de novo.

Um dia, a filmagem acaba. Aí, a nova pancada é perceber que você acabou a viagem melhor do que começou. E as suas decisões com certeza seriam melhores agora. Mas não dá mais. Tudo está na lata (ou na fita). O filme, feito hoje, seria melhor do que o que você fez. Junto com isso, vem a maldita insegurança. A dúvida. Você corre pra ilha, querendo rever todo e qualquer plano. Quer montar tudo em meia hora, pra ter a certeza da grande merda que fez. Ou então, pior, fica aguardando, silenciosamente desesperado, as malditas fitas chegarem do telecine em São Paulo.

É nesse momento em que me encontro. Segunda, recebo o material bruto. Vou, com certeza, passar o dia capturando fita por fita, encarando a realidade em 720×480. E sei – pois já passei por isso muitas vezes – vou odiar. Esse plano podia ter um movimento. Eu podia ter segurado um pouco mais. Podia ter dado uma outra orientação pro ator. Podia. Podia. Podia. Dói. Dói. Dói.

Aí, toda a sua esperança é direcionada pra um ser supremo. O Mestre dos Magos, o Gandalf, o Yoda, o Pai-Mei. Resignado, você se ajoelha e entrega as fitas para ele: o montador. Salve esse material, você diz, humilde.

No meu caso, o meu montador sou eu mesmo. Assim, chego à firme e concreta certeza: Estou fodido. E isso dói.

Legenda: Ai.

* Fala roubada do personagem de Geoffrey Rush em Shakespeare Apaixonado. Roteiro ótimo de Tom Stoppard.

 

Parei um pouco de postar porque fui para São Paulo, começar a finalização do filme. Depois de checar o teste de revelação, Eu e André (Luis da Cunha, fotógrafo do filme) batemos o martelo e demos o ok.   

Na sexta vim pra Recife, apresentar Comprometendo a Atuação, meu filme anterior no Cine-PE. Rapaz, que coisa impressionante. São quase três mil e quinhentas pessoas em uma sala gigante. É um negócio que intimida. Você sobe no palco pra apresentar o filme e se depara com aquele mar de gente. Não pude deixar de tirar uma foto.

Foi a melhor recepção que o filme teve até agora em todos os festivais que fui. O feedback pós-exibição também foi ótimo. Estou cada vez mais convencido que os festivais são mais do que vitrine para os filmes, um local de provação e crescimento técnico e amadurecimento conceitual. Muito debate, muitas opiniões, muitas idéias. Bom demais. Só uma coisa estragou o ótimo clima. Perdi meu celular, com todos os meus contatos. Sentei pra uma entrevista pro Zoom e levantei sem perceber que o aparelho tinha caído. Droga.

Ontem foi a premiação e o filme levou mais um prêmio. Melhor ator pro Johnathan Haagensen. Fiquei muito feliz, achando justo, muito justo, justíssimo. Ele mandou muito bem mesmo, se tornou a alma do filme – e além disso foi um grande parceiro. Dirigir ator é um trem que eu adoro. Curto muito ver o personagem ganhar vida, crescer e se tornar real. É um processo que me fascina. Além disso, admiro a entrega dos atores. De repente, você se torna outra pessoa totalmente diferente e tem que achar a verdade naquilo ali. Impressionante.

 

Johnathan Haagensen e Michelle Valle em cena de Comprometendo a Atuação

Eu, apresentando o filme – frio na barriga

O teatro lotado – 3.200 pessoas

Debate dos diretores – Marco Dutra (Um Ramo), eu, Juliana Sanson (Fabulário Geral de um Delírio Curitibano), Felipe Calheiros (Até Onde a Vista Alcança) e Fernando Coimbra (Trópico das Cabras)

Realizadores de curtas

Amanhã volto pra Cuiabá, onde vou aguardar o material telecinado chegar. Estou doido pra começar a costurar Depois da Queda. Com certeza vou mandar pra Recife ano que vem. E torcer pra entrar.   

 

 

 

Um homem e seu carro

Abril 29, 2008

Homens adoram carros. Eles dão nomes a eles, cuidam como se fossem da família. Eu mesmo tive o meu caso de amor por um Escort Hobby prata 98. “O que isso tem a ver com o filme?”, você pergunta. Resposta: As coisas ficam cada vez mais estranhas.

Pra quem não sabe, a pré-produção do filme teve que ser toda feita aqui em casa. A obra na produtora nunca acabava e no fim das contas, meu escritório virou central de produção. Pouco antes do primeiro dia de filmagens, uma coisa aconteceu. Um pé de arruda que fica na varanda simplesmente murchou.

Bom, eu não sou supersticioso. Nem a pessoa mais religiosa do mundo. Pra falar a verdade, sou bem cético. Mas o que é que eu faço com o que eu vou contar a seguir?

Como já escrevi aqui, a filmagem foi cheia de percalços (câmera pifando, ator perdendo voz, etc.). Concluído o filme, o Léo, assistente de direção, gente fina e espírita (eu não sabia) me chamou a atenção:

- Bruno, eu fui no Centro.

- Centro?

- Centro espírita.

- Ah.

- E falei das zicas do filme e tal…

- Uhum.

- Escuta, o dono do carro… Ele morreu, né?

- …

Flashback: Faltando uns 15 dias para as filmagens, Carol (Diretora de Arte) e Paulo (Cenotécnico) entram no escritório felizes da vida. Acharam o carro. Um Monza 94, parado, cujo dono havia falecido recentemente. A dona, viúva, aceitou a proposta e fechamos rapidamente a venda. Logo, o carro passou por uma revisão e pouco depois, estávamos preparando-o para o filme. Por preparar, entenda amassar lataria e quebrar vidros.

Feito tudo isso, Paulo solta a pérola: “Ai, se o dono do carro visse isso”. “Oi?” “Ele era apaixonado pelo carro.”

Bom, ontem à noite, Léo me liga:

- Alô, Bruno?

- Ôpa.

- Fala, cara. Estou saindo do centro.

- Centro?

- Centro Espírita.

- Ah.

- Então, me chamaram num canto lá. Do nada. E me disseram que o dono do carro ainda tá no carro.

- …

- É. Ele não fez a passagem, tá por aqui ainda. E apareceu pra moça aqui do Centro.

- …

- O carro, você já devolveu ele?

- Hmmmnão.

- Onde que ele tá?

- Na minha garagem.

- …

- Léo.

- …

- Fala alguma coisa.

- Ai.

Agora são meia noite e quinze da segunda-feira. Enquanto escrevia esse post, acendi a luz que estava apagada, dei uma volta hesitante na sala, fui até o quarto e vi meu filho dormir. Ceticismo à parte, essa história toda me deixou meio assim. Segundo o Léo, eu devo mandar rezar uma missa para o dono do carro. “Não existe maldade nele, nem nada disso, mas um espírito confuso pode ser um problema”.

Meu lado racional me diz pra ficar na minha que isso tudo é só história. Mas um arrepio leve na nuca me diz que não custa nada pedir paz pra um cara apaixonado pelo seu carro. O Monza ainda está guardado, para o caso de precisarmos refazer algum plano, então, onde ele estiver, espero que entenda o que estamos fazendo aqui. A verdade é que mesmo amassado e quebrado esse carro foi muito querido por toda equipe e não teríamos feito o filme sem ele.

Seja qual for a sua estrada agora, Euclides Añez, leve o nosso desejo de paz.

O carro, depois de “pronto”.

Alguns já perceberam, então vou assumir. O filme está cheio de referências nerds. A começar pelos enquadramentos, assumidamente HQ.

Além disso, um dos personagens principais, o Murilo, é tarado por quadrinhos. Então, para compor o seu apartamento, a direção de arte fez um trabalho muito bacana, reunindo centenas de revistas e alguns pôsteres, além de livros e objetos de cena. Ainda sobre o Murilo, o cara é um publicitário e, pelo menos aqui em Cuiabá, onde temos dois dos mais populares blogs brasileiros, o universo das agências é repleto de virais e sanduíche-iches. Assim, era uma ótima oportunidade de inserir algumas dessas referências no filme através do Murilo. Quem é mais tarado pela net, curte seriados como Lost, trilogias como Star Wars e O Senhor dos Anéis, com certeza vai pescar alguma coisa.

Murilo (Giovanni Araújo) com camiseta do Jeremias

Em tempo, seguem os links para os blogs:

www.jacarebanguela.com.br

www.sedentario.org

Quem quiser conhecer Jeremias José, pode ir em:

http://www.youtube.com/watch?v=hqHvTazcHb4

 

Tá. Tudo bem que a gente rodou em lugares inamistosos e estranhos. E tudo bem que cinema é pára-raio de doido. Mas coisas estranhas acontecem com um pouco menos de frequência, eu acho.

Na quinta-feira, rodando a cena do atropelamento, um carro pára próximo da barreira e do nada, uma moça sai gritando: “Daaaaaaaaaaaniiiiiii!!!!” Dani, pra quem não sabe é a super mega hiper blaster produtora e gente fina que entre outras coisas descolou um bebê que não chorava e uma locação pra garagem tarde da noite. Então. Lá foi Dani encarar uma moça bêbada às quatro da manhã. Ela explicou que era um filme e tal: “Essas luzes aqui, não é de boite, xuxu.” Automaticamente, a ébria entrou numas: “Cinema? Quero ver o Selton Mello! Chama o Selton Mello!” Daqui a pouco ela estava pegando os cones de isolamento e atirando longe. Em algum momento, quando percebeu que não ia rolar Selton Mello, ela se acalmou e foi embora.

Na sexta, rodando na rodoviária, o sol chegando, pressão… E aí aparece um senhor encrencando com Acácio, o técnico de som. Ele queria saber com quem Acácio já tinha trabalhado e grudou no pessoal da produção até levar um tripé de câmera com ele pro chão. Sorte, nada aconteceu, nem com ele, nem com o tripé.

Talvez tenha sido a camiseta de Murilo.

Acácio e o tio: “Vochê já trabalhô co Barretão?”